O papel da inflamação e da fibrose na calvície - Fabiana Caraciolo

O papel da inflamação e da fibrose na calvície

Calvície masculina e calvície feminina

Calvície masculina e calvície feminina

Se você sofre com calvície, provavelmente já ouviu falar que a culpa é da genética e dos hormônios. Mas você sabia que, por baixo da pele, pode estar acontecendo um processo de “cicatrização” invisível que impede o seu cabelo de crescer?

Vamos percorrer a linha do tempo das descobertas científicas para entender como chegamos a essa conclusão.

 

2020: O início do debate

Em março de 2020, um estudo internacional analisou biópsias do couro cabeludo e encontrou inflamação em 73% e fibrose (um tipo de cicatriz) em 68% das pessoas com calvície. Na época, os autores notaram que até pessoas sem calvície tinham sinais parecidos, o que os fez questionar se a inflamação era mesmo a grande vilã.

No entanto, no mesmo ano, pesquisadores brasileiros trouxeram uma peça fundamental para o quebra-cabeça: eles provaram que a microinflamação é muito mais intensa nos fios que estão afinando (miniaturizados) do que nos fios grossos e saudáveis. Ou seja, onde o cabelo está morrendo, a inflamação está atacando com mais força.

 

2022: O “concreto” que sufoca o fio

Em 2022, a investigação deu um passo além. Descobriu-se que a fibrose atinge a região do bulge (a “casa” das células-tronco do cabelo). À medida que o fio afina, o tecido ao redor dele vai ficando rígido, como se o solo onde a planta cresce virasse concreto. Esse endurecimento impede que o folículo se regenere, sugerindo que precisamos de remédios que combatam essa “cicatriz” para recuperar o cabelo.

 

2025: Inflamação e fibrose na área nobre do folículo

Em 2025, um estudo  identificou  um padrão de inflamação e fibrose presente em 81% dos pacientes com calvície: o padrão PIILIF (Perifollicular Infundibulo-isthmic Lymphocytic Infiltrates and Fibrosis). O mais impressionante é que os autores evidenciaram que esse processo ocorre até em áreas da cabeça que ainda pareciam normais a olho nu. Isso sugere que é um processo silencioso, que pode estar aconteceno anos antes de o paciente notar que o cabelo está afinando.

Muitas pessoas que não respondem ao tratamento padrão de calvície podem então apresentar esse quadro de inflamação e fibrose.

Os pesquisadores mostraram que o hormônio DHT não só manda o folículo encolher, mas também age como um gatilho estimulando as células ao redor a liberarem sinais inflamatórios que levam à criação de tecido cicatricial ao redor o folículo. O folículo começa a ser “emparedado” por um  “manguito” rígido de colágeno, que o sufoca e encurta a sua fase de crescimento.

Fibrose ao redor dos folículos

 

O que isso muda no tratamento de quem tem calvície?

A ciência nos mostra, com estes estudos, que tratar a calvície apenas “bloqueando o hormônio” pode não ser o suficiente para muitos pacientes. Com base nesses artigos, o que precisamos levar em conta é:

  1. Tratamento mais abrangente: Além do bloqueio hormonal, em alguns casos, precisamos de agentes anti-inflamatórios e antifibróticos. Em um dos estudos, pacientes que usaram uma combinação de tratamentos incluindo medicamentos para inflamação tiveram 67% de melhora, mesmo quando tratamentos anteriores haviam falhado.
  2. Diagnóstico precoce pela Tricoscopia: Sinais sutis à tricoscopia podem indicar que a fibrose está começando. Detectar isso cedo permite agir antes que o folículo seja substituído por uma cicatriz definitiva.

Imagine que o folículo capilar é uma planta tentando crescer. O hormônio DHT age como uma praga, mas a fibrose é como se o solo ao redor das raízes se transformasse em concreto.

Não adianta apenas eliminar a praga (com finasterida ou dutasterida) e/ou colocar fertilizante (minoxidil) se o solo estiver tão duro que as raízes não conseguem se expandir.

O tratamento moderno da calvície  pode se basear também em “amaciar” esse solo novamente para que o cabelo possa crescer saudável.

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Referências Bibliográficas 

  1. ValdebranM, Mo J, Elston DM, Doan L. Pattern hair loss: Assessment of inflammation and fibrosis on histologic sections. Journal of the American Academy of Dermatology. 2020 Mar;82(3):757-758. 
  2. MerlottoMR, Ramos PM, Miot HA. Pattern hair loss: Assessment of microinflammation in miniaturized and terminal hair follicles through horizontal histologic sections. Journal of the American Academy of Dermatology. 2020 Aug;83(2):e53-e54. 
  3. Li K, Liu F, Sun Y, et al. Association of fibrosis in the bulgeportion with hair follicle miniaturization in androgenetic alopecia. Journal of the American Academy of Dermatology. 2022 Jan;86(1):e7-e8. 
  4. Li L, Chen Y, Lin M, et al.The Role of Fibrosis in Androgenetic Alopecia: Mechanisms and Implications. Skin Appendage Disorders. 2025 Nov; DOI: 10.1159/000549748. 
  5. Umar S, Tan BH,Shitabata PK. Perifollicular Inflammation and Fibrosis in Androgenetic Alopecia: Implications for Diagnosis and Treatment – A Comparative Histopathologic and Clinical Study with Normal-Appearing Scalp. Clinical, Cosmetic and Investigational Dermatology. 2025 Dez (2026);19:1–16. 

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